Nas comemorações do Dia do Motorista, celebrado em 25 de julho, o setor de transporte e logística chama a atenção para um desafio que vai além das homenagens e do reconhecimento da importância para o desenvolvimento do País, à categoria. Enquanto 88% das transportadoras brasileiras relatam dificuldades para contratar motoristas, segundo pesquisa da NTC&Logística, o país continua dependendo do transporte rodoviário para movimentar cerca de 68% das cargas. O contraste evidencia um dos principais desafios da logística nacional: manter o funcionamento de um setor estratégico da economia diante da crescente escassez de profissionais.
O cenário é resultado de uma combinação de fatores. O amadurecimento da categoria e a percepção de uma profissão pouco atrativa para os mais jovens reduziram o interesse pela carreira, criando um desafio para toda a cadeia produtiva. Nesse contexto, a discussão sobre o futuro da profissão envolve a transformação da experiência de trabalho e como tornar a carreira mais atrativa, sustentável e alinhada às expectativas do mercado de trabalho atual.
Para Otávio Fonseca, Diretor de Digitalização da JSL - empresa com o maior e mais completo portfólio de serviços logísticos do país - o principal desafio é a falta de entendimento do momento atual do segmento no mercado. “A maior dificuldade hoje não é formar motoristas, é mostrar que a profissão mudou. Hoje, tecnologia e inovação também fazem parte da rotina do motorista, permitindo diferentes modelos de operação, oportunidades de desenvolvimento profissional e mais qualidade de vida e previsibilidade”, explica o executivo.
Inovação nas estradas
Ferramentas de telemetria, inteligência artificial, monitoramento em tempo real e softwares de gestão de viagens vêm alterando a rotina dos profissionais. Esses sistemas ajudam a identificar sinais de fadiga, corrigir comportamentos de risco, otimizar rotas e reduzir períodos de espera, tornando as jornadas mais seguras e organizadas.
Na JSL, por exemplo, a adoção de tecnologia embarcada reduziu cerca de 20% dos acidentes envolvendo colaboradores e diminuiu aproximadamente 50% dos quilômetros percorridos acima da velocidade permitida. “Temos uma torre de controle dedicada que monitora o comportamento dos motoristas por meio de câmeras e sensores embarcados nas cabines. Quando o sistema identifica sinais de fadiga, distrações ou outros padrões de risco, a equipe atua imediatamente, orientando paradas ou ajustes na condução. Isso reduz riscos, aumenta a segurança e permite que o profissional desempenhe suas atividades com mais tranquilidade", explica.
Para além do caminhão, as plataformas digitais também ampliam a autonomia dos profissionais. Aplicativos que conectam motoristas autônomos a cargas disponíveis permitem maior flexibilidade na escolha das rotas e da agenda de trabalho. Outras soluções ajudam a identificar pontos seguros para descanso, calcular trajetos mais eficientes, reduzir deslocamentos vazios e simplificar processos que antes exigiam tempo e burocracia.
No geral, o principal papel da inteligência artificial no setor tem sido ampliar a capacidade de atuação dos motoristas. Ao automatizar tarefas operacionais e apoiar decisões em tempo real, a tecnologia permite que esses profissionais trabalhem com mais segurança, eficiência e autonomia.
Capacitação e desenvolvimento
Embora a tecnologia seja parte importante da resposta, a capacitação, desenvolvimento contínuo e valorização dos motoristas tem papel fundamental para a garantia de um futuro sustentável da profissão e do segmento como um todo. “Quanto mais acesso à formação, qualificação técnica e desenvolvimento de carreira o profissional tiver, maior será o interesse em ingressar e permanecer no segmento. Formar e valorizar motoristas é uma responsabilidade compartilhada por todo o setor e um passo essencial para garantir a renovação dessa mão de obra nos próximos anos”, pontua Fonseca.
Nesse sentido, programas de formação e universidades corporativas que focam no desenvolvimento de quem já está na área ganham importância por ampliarem oportunidades de crescimento e contribuir para a profissionalização do setor. “É importante reforçar que é possível fazer uma progressão de carreira e salarial como motorista, assim como em outros setores. Na JSL, por exemplo, o salário do motorista pode triplicar se a produtividade for maior, com paradas, cargas e descargas mais ágeis e eficientes.”
Para uma geração que valoriza segurança, flexibilidade, desenvolvimento profissional e o uso intensivo de tecnologia, a transformação da rotina do motorista pode representar um fator decisivo para aumentar a atratividade da profissão. Assim, a inovação passa a contribuir para reposicionar a carreira como uma atividade cada vez mais conectada, qualificada e alinhada às novas expectativas do mercado de trabalho.
“A transformação da experiência de trabalho é uma medida importante para garantir o futuro da logística brasileira e atrair novos talentos, sustentando o desenvolvimento do setor nas próximas décadas”, finaliza.