Por João Valle*
A lógica do “cada modal por si” ainda predomina em boa parte das cidades brasileiras e é um modelo que já não responde às necessidades de mobilidade urbana contemporânea. Quando ônibus, metrô e trens operam como sistemas fragmentados, com tarifas e regras distintas, o resultado é uma experiência mais cara, complexa e, muitas vezes, excludente para o usuário.Mais do que um problema operacional, trata-se de uma barreira concreta ao acesso. A pesquisa Viver nas Cidades (2025), realizada com 700 moradores de São Paulo, mostra que o custo do transporte impacta diretamente a rotina da população: 60% deixam de visitar amigos ou familiares em outros bairros; 56% desistem de atividades de lazer, como ir a parques ou cinemas; 50% deixam de realizar consultas médicas ou exames; 45% deixam de procurar emprego; e 33% deixam de ir à escola ou universidade. Os dados deixam claro que a mobilidade urbana ainda limita o direito de ir e vir.
Nesse cenário, a unificação tarifária, apoiada por sistemas de bilhetagem digital, se coloca como uma solução estruturante. Ao permitir que diferentes modais sejam utilizados dentro de uma mesma lógica de cobrança - baseada no tempo de deslocamento e não na troca de veículos - esse modelo reduz fricções, amplia o acesso e torna o transporte público mais racional do ponto de vista do usuário.
Milão, principal centro financeiro e empresarial da Itália, oferece um exemplo consistente dessa abordagem. A mobilidade é tratada como infraestrutura estratégica para sustentar o fluxo diário de trabalhadores, estudantes e turistas. O bilhete único custa € 2,20, tem validade de 90 minutos e permite o uso integrado de metrô, ônibus, bondes e trens, incluindo a região metropolitana. Há ainda a opção de passe mensal por € 39, com acesso irrestrito a todos os modais.
São modelos como esse que ajudam a evidenciar os desafios brasileiros. No país, algumas cidades começam a avançar na implementação do bilhete único, mas o modelo ainda falha, pois nem sempre integra diferentes municípios (especialmente regiões metropolitanas) e nem todos os modais (ônibus, metrô, trem, BRT, vans). Além disso, alguns municípios ainda têm regras rígidas de uso, que limitam o potencial do bilhete único como ferramenta de inclusão e eficiência no transporte público.
A tecnologia necessária para superar esse modelo já existe. Sistemas adaptáveis e integrados, bilhetagem digital, pagamento por aproximação, QR Code ou aplicativos permitem reconhecer o trajeto do usuário e aplicar regras tarifárias mais simples, transparentes e auditáveis.
O desafio, portanto, não é técnico, mas de coordenação: municípios de uma mesma região metropolitana ainda operam de forma fragmentada. Sem integração entre sistemas, uma solução isolada perde eficácia. É preciso adotar tecnologias compatíveis e uma governança conjunta para que a integração tarifária se concretize de fato.
Avançar na unificação tarifária é, sobretudo, uma decisão de governança. Trata-se de reposicionar o transporte público como uma política de acesso e não apenas como um serviço de deslocamento. Ao simplificar o sistema e torná-lo mais acessível, as cidades ampliam oportunidades, reduzem desigualdades e tornam a mobilidade mais alinhada às necessidades reais da população.
* João Valle é diretor da Empresa 1, centro de inovação em mobilidade urbana e pioneira da bilhetagem eletrônica no Brasil.