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Pesquisadora da USP e da IEA Bioenergy derruba mito de que biocombustíveis competem com a produção de alimentos
Professora Glaucia Souza afirma que a narrativa "food versus fuel" é ultrapassada, simplista e desmentida pela ciência
Por Administrador
Publicado em 03/07/2026 12:03
Sustentabilidade
Reprodução Brasil Escola

A ideia de que a produção de biocombustíveis necessariamente ameaça a segurança alimentar global, uma das críticas mais recorrentes ao setor, especialmente no debate europeu, não encontra respaldo nos dados científicos disponíveis. É o que afirma a professora Glaucia Mendes Souza, titular da Universidade de São Paulo (USP) e líder da Força-Tarefa de Biocombustíveis para a Descarbonização do Transporte da IEA Bioenergy (Programa de Cooperação Tecnológica de Bioenergia da Agência Internacional de Energia), em entrevista ao podcast Conexão MBCBrasil – A Mobilidade em Pauta.

"A bioenergia não é um jogo de soma zero. Um time não teve que perder para o outro ganhar", disse a pesquisadora. "O discurso da competição entre alimentos e bioenergia é muito simplista. O mais acertado é falarmos em food and fuel."

A afirmação é sustentada por evidências científicas robustas. Uma meta-análise internacional abrangendo 224 artigos sobre o tema concluiu que não existe correlação estatística entre a produção de biocombustíveis usando culturas comestíveis ou não comestíveis, e a segurança alimentar. Segundo a pesquisadora, quando há algum efeito sobre preços, ele ocorre majoritariamente em países desenvolvidos. Nos países em desenvolvimento, ou não há impacto ou o acesso ao alimento melhora.

O caso brasileiro é citado pela professora como a evidência mais contundente. Nos 50 anos do Proálcool, o Brasil passou de importador a um dos maiores exportadores de alimentos do mundo, ao mesmo tempo em que consolidou o programa de etanol e implementou o Código Florestal.

"Dá para fazer as três coisas ao mesmo tempo", afirmou Glaucia Mendes Souza, referindo-se à produção de bioenergia, expansão da agricultura e preservação ambiental.

Para José Eduardo Luzzi, presidente do Conselho do Instituto MBCBrasil, os dados falam por si. "Em 2025, o Brasil produziu aproximadamente 37 bilhões de litros de etanol combustível e quase 10 bilhões de litros de biodiesel, reduzindo significativamente as emissões de CO₂ pela substituição, respectivamente, da gasolina e do diesel fóssil."

Luzzi também destacou que 65% da mata nativa brasileira é preservada e que há uma estimativa de cerca de 100 milhões de hectares de pastagens degradadas no país com potencial de uso para expansão da bioenergia e da produção de alimentos, sem necessidade de desmatamento.

A pesquisadora aponta ainda uma dimensão frequentemente ignorada no debate, de que a principal causa da fome no mundo não é a escassez de alimentos, mas a falta de renda para adquiri-los e a falta de acesso à energia para conservá-los. 

"A fome no mundo não é causada pela produção de biocombustíveis", afirmou a professora. "Comunidades sem energia elétrica têm dificuldades de armazenamento de alimentos. A produção de biocombustíveis também leva bioenergia para esses locais."

Nesse sentido, a bioenergia contribui em duas frentes simultâneas, ao gerar renda nas regiões produtoras, ampliando o poder aquisitivo de populações rurais, e ao oferecer acesso a energia onde redes elétricas convencionais não chegam.

Legislação brasileira como modelo global

Do ponto de vista regulatório, o Brasil também avança. O RenovaBio, programa nacional de biocombustíveis vinculado ao Código Florestal, é citado pela professora como um exemplo internacional de política pública que une descarbonização e proteção ambiental.

"Quem é certificado, produzindo biocombustível sem desmatamento, ganha CBIOs, créditos de descarbonização negociados na Bolsa de Valores", explicou Glaucia Mendes Souza. "Os registros do CAR incluem imagens de satélite. Dá para saber que não foi desmatada a área."

A expansão da produção, segundo estudo da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), pode ser obtida sem ampliar a área agrícola, por meio de milho de segunda safra, aumento de produtividade, uso de pastagens degradadas e melhor aproveitamento de resíduos. O potencial projetado é de adicionar cerca de 24 bilhões de litros de etanol.

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