Apesar do crescente interesse por veículos elétricos e híbridos, a falta de infraestrutura adequada para recarga permanece uma das principais preocupações dos consumidores brasileiros – assim como a busca por segurança ao adquirir um novo carro. O brasileiro também é mais propenso do que a média global a escolher uma marca diferente na próxima troca de veículo, priorizando modelos que melhor atendam às suas necessidades, com bom custo-benefício, qualidade, tecnologia e recursos de proteção. Essas são algumas das descobertas da edição de 2026 do estudo Global Automotive Consumer Study, realizado anualmente pela Deloitte.
Os resultados da pesquisa, que contou com a participação de mais de 28 mil consumidores em 27 países, sendo mil somente no Brasil, mostram que os hábitos de consumo estão mudando na indústria automotiva, com novas expectativas dos compradores em relação a preço, experiência e sustentabilidade.
“A mudança de comportamento do consumidor tem transformado e demandado novas soluções da indústria automotiva, com o surgimento de novas variáveis na hora de comprar ou trocar de carro, como a questão da recarga de veículos elétricos, autonomia, ciclo de vida das baterias e os atributos de tecnologia do automóvel. Com isso, a indústria precisa estar atenta e se antecipar às tendências, entregando soluções inovadoras e que atendam às necessidades dos consumidores”, afirma Paulo de Tarso, sócio-líder da indústria de consumo da Deloitte.
Segundo dados da Fenabrave (Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores), o mercado automotivo brasileiro registrou crescimento de 2,58% em 2025, com alta de quase 40% nos emplacamentos de veículos híbridos e elétricos. Apesar disso, a maior parte dos consumidores ainda prefere veículos a gasolina ou diesel – no Brasil, 51% dos respondentes do estudo disseram que pretendem adquirir um carro movido a combustível fóssil na próxima compra, em linha com a média global (50%). Os veículos elétricos híbridos aparecem em segundo lugar, com 21% da preferência entre os brasileiros, ante 18% no resto do mundo.
A infraestrutura limitada de recarga é um dos principais desafios para a adoção de veículos elétricos no Brasil. Há uma apreensão em relação à disponibilidade de pontos de recarga. De acordo com o estudo, 93% dos consumidores brasileiros – e 86% da média global – esperam carregar seus veículos elétricos em locais privados, como residências ou ambientes de trabalho, o que evidencia a necessidade de expansão da infraestrutura pública para atender a essa demanda.
O estudo revelou um descompasso entre a intenção de recarregar veículos elétricos em casa e a preparação para isso. Entre os brasileiros que desejam realizar a recarga residencial, 67% não possuem carregadores, percentual que é ainda maior no Japão, atingindo 75%, e menor na média global, com 48%. Na China, a instalação de pontos de recarga domiciliares é mais frequente, com 88% dos entrevistados tendo acesso a carregadores em casa; porém, 42% deles demonstraram preferência por utilizar carregadores no trabalho ou em estações públicas. Em suma, ainda há um desafio grande relacionado à infraestutura de carregamento.
Outras preocupações relacionadas a veículos elétricos apontadas pelos respondentes foram os custos associados a uma eventual substituição de bateria (para 33% dos brasileiros e 35% na pesquisa global), autonomia (31% e 37%, respectivamente) e tempo de carregamento (31% e 39%).
Flexibilidade para novas marcas e relevância de recomendações em redes sociais
Os consumidores brasileiros são menos fiéis a marcas do que a média global quando se trata de escolher um novo veículo – 53% disseram que seu carro anterior era de outra marca, ante 47% globalmente. Por aqui, os compradores também dão mais atenção à qualidade (65% ante 54% no resto do mundo) e ao desempenho (56% ante 46%), refletindo um nível de seleção mais elevado.
A maior parte dos brasileiros também demonstra maior flexibilidade na preferência por fabricante ou marca, enquanto o mercado global mantém uma preferência mais clara por fabricantes nacionais – 52% dos respondentes no Brasil dizem não se importar com a marca desde que o veículo atenda às suas necessidades, enquanto somente 43% dos respondentes globais têm a mesma opinião.
No Brasil, as redes sociais e as avaliações de influenciadores digitais despontam como a segunda principal fonte de informação para quem pretende comprar um novo veículo, sendo mencionadas por 44% dos entrevistados — ficando atrás apenas da visita à concessionária, citada por 58%. Em âmbito global, no entanto, as redes sociais ocupam apenas a quinta posição entre as fontes mais consultadas (33%), com maior relevância para visitas presenciais (50%), sites de fabricantes (42%), concessionárias (37%) e portais de notícias automotivas (35%). Apesar da crescente influência das recomendações online, fatores como uma boa negociação, transparência nos preços e a possibilidade de testar o veículo presencialmente continuam sendo determinantes na decisão de compra, conforme ressalta Paulo de Tarso.
Conectividade e novas tecnologias têm papel importante
A percepção de utilidade dos veículos predominantemente definidos por software – automóveis cujas principais funções e funcionalidades são controladas, atualizadas e aprimoradas por meio de software e não apenas por componentes mecânicos fixos – é mais elevada no Brasil (64% ante 54% nos dados globais), indicando maior receptividade a funcionalidades e serviços digitais. Com isso, os brasileiros também se mostram mais inclinados a utilizarem recursos de personalização habilitados por IA, como regulagem da climatização, ajuste da posição dos bancos, entre outros – 68% dizem ser “muito provável” essa utilização, enquanto 55% dos respondentes globais têm a mesma opinião.
À medida que o veículo ganha destaque como plataforma digital, cresce também a importância dada ao seu ecossistema: 76% dos respondentes brasileiros ouvidos pelo estudo disseram que o ecossistema veicular é tão ou mais importante que o do smartphone, superando o cenário global. O consumidor nacional também se mostra mais disposto a pagar por atualizações de software ou funções adicionais e, para 73% dos brasileiros, esse tipo de conexão aumenta a probabilidade de permanecer mais tempo com o mesmo veículo.
"Os brasileiros enxergam o veículo cada vez mais como uma plataforma digital, valorizando não apenas a conectividade, mas também a possibilidade de personalização e de acessar novas funcionalidades por meio de atualizações de software. Essa abertura à inovação mostra que, para nosso consumidor, o ecossistema veicular já rivaliza — ou até supera — o do smartphone, tornando-se elemento central na experiência de mobilidade. Além disso, a disposição em investir em recursos digitais e permanecer mais tempo com o mesmo carro reforça o papel transformador da tecnologia no setor automotivo”, comenta Paulo de Tarso
Tanto no Brasil quanto no cenário global, segurança e monitoramento lideram a disposição do consumidor em pagar por serviços conectados, indicando uma demanda por funcionalidades que ampliem a proteção e ofereçam suporte ao condutor. 85% dos consumidores brasileiros e 70% dos globais se dizem dispostos a pagar valor extra por serviços de rastreamento anti-furto, enquanto 81% dos respondentes no Brasil e 69% no mundo pagariam por um sistema de assistência de emergência.
No entanto, apesar da alta disposição de pagar por serviços conectados, os consumidores mostram-se preocupados com o compartilhamento de seus dados, especialmente no que se refere a localização, dispositivos conectados e câmeras internas – preocupações apontadas por 60% dos brasileiros, ligeiramente acima da média global.
“Esses dados evidenciam que é preciso, por parte dos fabricantes, investir cada vez mais em confiabilidade e transparência nos serviços conectados, de forma a atender a necessidade dos consumidores e ganhar sua confiança”, analisa Paulo de Tarso.
Em relação à prestação de serviços, os consumidores brasileiros (70%) recorrem mais às concessionárias autorizadas do que o público global (64%), mas os aspectos que embasam a escolha são os mesmos: qualidade, confiança e cobertura da garantia.
Quando perguntados sobre a experiência com o serviço, as prioridades são outras – a transparência em relação a preços e aos serviços realizados aparece como prioridade para consumidores de todos os países pesquisados, seguida pelo custo do serviço e o atendimento prestado.
O estudo reflete uma transformação no perfil do consumidor brasileiro de veículos automotores, que demonstra maior flexibilidade na escolha de marcas e maior atenção à qualidade, desempenho e tecnologia ao adquirir um novo veículo. Apesar do avanço no interesse por modelos elétricos e híbridos, desafios como a infraestrutura de recarga e preocupações com segurança ainda persistem, evidenciando que o setor automotivo precisa se adaptar rapidamente às novas expectativas e demandas. O cenário aponta para um mercado cada vez mais orientado por inovação, conectividade e experiência digital, no qual fabricantes e concessionárias têm a oportunidade de conquistar a confiança do consumidor ao oferecer soluções que atendam tanto às necessidades práticas quanto às aspirações de mobilidade sustentável e inteligente.
Metodologia
A edição 2026 do Global Automotive Consumer Study foi realizada entre outubro e novembro de 2025 e contou com a participação de 28.553 consumidores de 27 países. No Brasil, o levantamento envolveu 1.000 pessoas maiores de 18 anos, distribuídas entre 48% homens e 52% mulheres, que responderam a um questionário online.