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Por que as pessoas abandonaram o ônibus? Obra decifra o colapso do transporte no Brasil
Em novo livro, ex-secretário de Transporte do DF Alex Carreiro critica o modelo de financiamento transporte público e propõe uma reestruturação do sistema. Lançamento será em 25 de junho, em Brasília
Por Administrador
Publicado em 02/06/2026 12:03
Mobilidade

Os congestionamentos deixaram de ser apenas um problema de trânsito para se tornar um entrave estrutural ao funcionamento das cidades brasileiras. Em meio ao avanço da motorização individual, à perda de produtividade e à degradação progressiva do transporte coletivo, o gestor público Alex Carreiro* defende que o Brasil construiu, ao longo de décadas, um modelo urbano que expulsou passageiros dos ônibus e aprofundou desigualdades no acesso à cidade.
A tese está no centro de A Reconquista do Passageiro: Por que o transporte coletivo brasileiro entrou em colapso e o método para reconstruí-lo, livro lançado pela Bailer Books e que será apresentado no próximo dia 25 de junho, em Brasília. Ex-presidente da Apex-Brasil e ex-secretário executivo de Transporte e Mobilidade do Distrito Federal, Carreiro sustenta que a crise da mobilidade urbana não é consequência inevitável do crescimento das cidades, mas resultado de escolhas políticas, econômicas e urbanísticas acumuladas ao longo do tempo.
“O automóvel não conquistou as cidades brasileiras pela sua superioridade. Conquistou porque o Estado o ajudou a conquistar”, afirma o autor.
Segundo estimativas baseadas em estudos da Confederação Nacional do Transporte (CNT) e do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), os congestionamentos geram prejuízos superiores a R$ 100 bilhões anuais ao país em produtividade perdida, impactos logísticos, aumento do consumo de combustível e custos associados à mobilidade urbana. Paralelamente, o transporte coletivo enfrenta queda contínua de passageiros, aumento tarifário, envelhecimento da frota e perda de competitividade diante do automóvel e da motocicleta.
Para Carreiro, parte importante desse colapso está associada ao que define como “Paradigma Tarifário-Dependente”, modelo em que o transporte coletivo passou a ser sustentado quase exclusivamente pela tarifa paga pelos passageiros. Na prática, afirma o autor, o sistema transferiu justamente para os usuários mais dependentes o peso do financiamento de uma infraestrutura que beneficia toda a dinâmica econômica urbana.
“O transporte coletivo passou a ser tratado como um negócio que precisa se pagar exclusivamente pela tarifa. O resultado é que quem mais depende do sistema acabou assumindo o custo de uma infraestrutura essencial para toda a cidade”, afirma.
No centro da obra está o conceito que o autor chama de “espiral de degradação” da mobilidade. Segundo Carreiro, a perda de passageiros desencadeia um ciclo contínuo de deterioração operacional e financeira: menos usuários reduzem a arrecadação; a queda de receita pressiona reajustes tarifários e cortes operacionais; a piora do serviço afasta ainda mais passageiros.
“Se eu perco o passageiro, a operação fica mais cara. Se ela fica mais cara, eu tenho que dividir esse custo entre quem ficou, justamente quem tem menos opção e menos voz para reclamar”, diz o autor.
Diante da redução da demanda, afirma, os sistemas urbanos acabam presos a um processo de difícil reversão, marcado por aumento de tarifas, redução de linhas, envelhecimento da frota e perda progressiva de atratividade do transporte coletivo.
“Ou a empresa reajusta a passagem, ou corta linhas, ou não renova o transporte. Com isso, ele deixa de ser atrativo e perde mais passageiros em ciclos sem fim”, resume.
Ao longo do livro, Carreiro argumenta que o debate sobre mobilidade urbana no Brasil permaneceu excessivamente concentrado na operação do sistema e pouco voltado à percepção do usuário. Segundo ele, a reconstrução do transporte coletivo passa necessariamente pela recuperação da confiança de quem abandonou ônibus, metrôs e trens urbanos ao longo dos últimos anos.
“A ideia é recuperar a confiança do usuário e atrair novamente aquele passageiro que se perdeu no meio do caminho”, afirma.
O autor ainda divide os usuários do sistema em dois grupos: aqueles que dependem exclusivamente do transporte coletivo e aqueles que possuem alternativa de deslocamento, como carro ou motocicleta. Para ele, reconquistar passageiros que hoje optam pelo transporte individual é fundamental para tornar o sistema economicamente mais equilibrado e socialmente menos desigual.
“Quando o passageiro que tem escolha volta para o transporte coletivo, o sistema inteiro se torna mais viável e menos pesado para quem não tem alternativa. Você democratiza não apenas o acesso ao transporte, mas a própria cidade e as oportunidades”, afirma.
Mais do que um diagnóstico sobre o colapso da mobilidade urbana, A Reconquista do Passageiro apresenta um conjunto de propostas voltadas à reorganização dos sistemas urbanos. O livro introduz o chamado Método de Reconquista do Passageiro (MRP), framework estruturado em eixos como eficiência operacional, sustentabilidade financeira, integração modal, inteligência de dados, renovação tecnológica e experiência do usuário.
De acordo com Carreiro, o modelo foi construído a partir de experiências práticas implementadas durante sua atuação na gestão pública do Distrito Federal, envolvendo renovação de frota, redução de falhas operacionais, reorganização do sistema e medidas voltadas à percepção dos usuários.
“Quando comecei a colocar no papel as medidas que vinham sendo adotadas, percebi que o mais importante não era inventar uma nova roda, mas consolidar aquilo que já havia mostrado resultado”, afirma. “O método nasce da aplicação de ações básicas, mas sempre olhando a operação a partir da percepção do passageiro.”
Ao defender que o transporte coletivo seja tratado como infraestrutura essencial nos moldes de saneamento, energia ou abastecimento a obra propõe uma mudança de paradigma no debate sobre mobilidade urbana no país.
“Subsídio ao transporte não é custo. É investimento em infraestrutura com retorno econômico, social e ambiental mensurável”, sustenta o autor.


*Alex Carreiro é gestor público e especialista em mobilidade urbana, com atuação em formulação de políticas públicas, gestão estratégica e articulação institucional. Foi secretário executivo da Secretaria de Transporte e Mobilidade do Distrito Federal (Semob-DF), onde participou diretamente de projetos voltados à modernização do transporte coletivo e à reorganização da mobilidade urbana em uma das maiores redes de transporte público do país.


Lançamento do livro "A Reconquista do Passageiro"
Autor: Alex Carreiro
Data: 25 de junho de 2026
Horário: 19h
Local: SESI Lab — SCTS Lt 1, Plano Piloto, Brasília/DF

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