Durante anos, a discussão sobre ganhos em aplicativos de mobilidade ficou concentrada em variáveis como categoria, cidade e volume de corridas. Um levantamento recente, porém, indica que a principal diferença de renda entre motoristas pode estar em uma decisão mais básica, e menos debatida: o tipo de combustível.
Dados do GigU, com base em mais de 56 mil motoristas em 22 estados, mostram que veículos elétricos operam com margem líquida mediana de 57%, enquanto carros a gasolina ficam em 36,8%. Na prática, isso representa um lucro de R$ 21,86 por hora para quem utiliza elétrico, contra R$ 12,85 no modelo tradicional, uma diferença próxima de 70%.
O dado chama atenção não apenas pela magnitude, mas pela consistência. A vantagem do elétrico aparece em todos os estados com amostra relevante, atravessando diferentes realidades regionais e perfis de operação. Em Minas Gerais, Paraná e Rio de Janeiro, a diferença de margem supera 15 pontos percentuais. Em cenários específicos, o impacto é ainda mais expressivo. No Amazonas, motoristas da categoria Comfort com carro elétrico chegam a R$ 27,64 por hora, enquanto aqueles que utilizam gasolina ficam em R$ 8,92. Na Bahia, o segmento Black registra R$ 26,15 por hora no elétrico, contra R$ 11,10.
A comparação direta dentro de uma mesma cidade ajuda a dimensionar o efeito. Em Fortaleza, motoristas de Uber X com veículo elétrico financiado lucram R$ 16,05 por hora, praticamente o dobro dos R$ 8,91 registrados entre motoristas que utilizam gasolina. A diferença ocorre sem alteração de categoria, jornada ou demanda, apenas pela mudança na estrutura de custos.
Ao contrário do que sugere a percepção comum entre motoristas, o faturamento bruto perde relevância quando confrontado com as despesas operacionais, destaca Luiz Gustavo Neves, CEO e co-fundador da plataforma. “Combustível, manutenção e variação de preços passam a definir a rentabilidade real da atividade. É nesse conjunto que o elétrico se destaca, ao reduzir o custo por quilômetro e trazer maior previsibilidade ao longo do mês”, afirma.
Para quem não tem acesso imediato a um veículo elétrico, o gás natural veicular (GNV) aparece como alternativa intermediária com impacto relevante. A margem mediana nacional do GNV é de 52,7%, ainda distante da gasolina. Em mercados como o Rio de Janeiro, essa diferença se traduz diretamente no ganho por hora: R$ 21,37 no GNV contra R$ 16,05 na gasolina na categoria Black. Em Pernambuco, no Uber X alugado, o rendimento praticamente dobra.
Há casos em que o ganho se amplia de forma mais significativa. Em Sergipe, motoristas de Uber X com carro próprio a GNV registram R$ 26,40 por hora, frente a R$ 9,13 da gasolina. Ainda que com amostras menores, os números reforçam a sensibilidade da renda ao tipo de combustível.
O papel do etanol, frequentemente tratado como alternativa natural à gasolina, também se mostra menos linear do que sugere o senso comum. Na prática, seu desempenho varia conforme a relação de preços em cada região. No Ceará, onde essa proporção é mais favorável, o etanol supera a gasolina em lucro por hora. Já na Bahia, o cenário se inverte, com vantagem para a gasolina, reflexo do menor rendimento energético do biocombustível, que pode anular a diferença de preço nas bombas.
No conjunto, o que se observa é uma mudança silenciosa na lógica econômica dos aplicativos. Em um ambiente de custos elevados e margens comprimidas, decisões operacionais ganham peso estratégico. A escolha do combustível, antes tratada como detalhe, passa a definir diferenças de até R$ 9 por hora no rendimento, sem qualquer alteração na rotina de trabalho.